A Linha do Tua

A próxima pessoa que eu ouvir dizer "A linha tem 120 anos e nunca teve problemas. Porque é que haveria de os ter agora?" vai levar três pontapés. Não por não saber, mas por falar sem saber e sem se informar com um engenheiro.
Não conheço a linha, não conheço a geologia do local do acidente. Mas sei uma coisa: tudo se degrada com o tempo. Sejam taludes de rocha que, expostos à chuva, ao vento, ao sol, se vão degradando, a rocha vai perdendo resistência, as fissuras aumentam e a circulação da água por elas vai-as tornando ainda maiores, seja porque nessas fissuras se podem depositar portículas de argila que fazem com que sejam mais fácil com que os blocos deslizem uns sobre os outros.... Sejam taludes de terra que a água pode ir erodindo, cujas partículas se vão partindo até serem argila...
Não é nada de especial, as coisas envelhecem. "Mas isso devia saber-se, deviam avaliar a segurança da linha...". Claro que sim. Mas há mais uma coisa que é preciso dizer claramente: a geotecnia nunca consegue saber 100% das propriedades dos materiais porque só podemos colher amostras aqui e ali. Quanto mais dinheiro tivermos parapesquisar, mais amostras podemos tirar mas nunca temos certezas de 100%. E nunca as podemos ter em 2 dias para satisfazer a curiosidade do povo e dos presidentes da Câmara. Os ensaios demoram tempo. A análise dos resultados demoram tempo. Os cálculos estruturais demoram tempo.
Estas coisas não são como queremos. Não somos todos médicos, engenheiros, juristas ou jornalistas. Por isso, a única coisa que peço é que falem com quem sabe antes de lançarem bojardas. O meu pai já me vinha com o discurso dos 120 anos no fim-de-semana. E tive que lhe dizer com alguma dureza que engenheira era eu e achava que aquela cambada de idiotas dos jornalistas e dos presidentes da câmara não sabiam do que falavam. Quem fala do que não sabe não percebe que só espalha a ignorância e o pânico?

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