Coisas e cenas

Acordei cedo. Passei uma hora pelos meus blogs de estimação, pelas fotos que os amigos colocaram no face esta semana, passei os olhos pelas gordas dos jornais. 
Esta semana, com tudo o que aconteceu à minha volta, tirou-me do meu mundo normal. Não pensei em blogs, nem na luz de Lisboa, nem nos crafts (excepto quando olhei com ar guloso para os tecidos numa lojinha em  Kitipur mas decidi que não ia perder a cabeça na primeira loja onde metia os pés). Não pensei na minha casa nem no trabalho. 
Mas não vos consigo explicar. Esta hora, hoje de manhã, a circular pelos blogs do costume, a ver fotografias de Lisboa, a passerandar por algumas lojas online portuguesas, senti-me pronta a voltar. Acho que os dias de que tanto precisava fora de tudo aconteceram, limparam-me a cabeça e estou pronta a regressar. Hoje o dia ainda é por aqui (dia de compras que a grande maioria das lojas esteve fechada e por isso esta parte ficou para o final), há mais um pouco desta cidade para ver; amanhã começa o longo regresso com stop-overs indecentemente longos. Domingo à noite já durmo na minha cama e a vida vai voltar aos eixos. 

Nepal #3

Nunca tinha tido umas férias em que pensasse tanta engenharia. É impossível não pensar engenharia quando se vê edifícios caídos ou rachas. É impossível não pensar em liquefação das areias quando algo tomba de uma maneira estranha. Impossível não pensar em travamentos e pórticos quando se vê casas alvenaria resistente de tijolo caídas. E sim, o nosso sentido de humor macabro de engenheiro leva-nos a correr para ver de perto um pilar partido. E casas antigas de pé? Pois, abençoados os prédios novos que as aconchegam. Sim, é mais sensato derrubar de forma controlada uma parede periclitante que deixá-la lá e correr o risco que caia na cabeça de alguém. O tanque estava bom antesdo terramoto e agora perde água? Pois, não me espanta.... Vai ser preciso avivar a fissura e tapar com uma boa argamassa. Coitado do templo mas as estruturas no topo não têm uma grande base de apoio e movimentos horizontais não são coisa para a qual estejam preparadas.
Da próxima vez que alguém me falar em considerar os esforços sísmicos no projecto, acreditem que vou ouvir com muito mais atenção.

Nepal #2

Pois, nesta viagem não há posts mete nojo. Quem me manda chegar cá depois de um terramoto?
Temos andado pela cidade, a conhecer as várias zonas, todos estes dias. Vi os acampamentos de pessoas que, sensatamente, decidiram esperar em espaços abertos que as réplicas terminassem. Se calhar algumas perderam as casas, mas pelo que vi será uma pequena percentagem.
O que levo daqui é muito mais uma memória de resiliência, calma, paciência e civismo. Hoje conseguimos entrar em katmandu durbar square, uma das praças mais importantes. Não vos vou negar que ficou seriamente destruída. Já começou uma remoção de destroços calma e organizada. Não duvido que daqueles destroços ainda sairão mais corpos. Mas as imagens que me ficaram na cabeça são as filas ordenadas de pessoas a retirar madeira, militares a carregar traves de madeira, militares a distribuir água. Uma cidade a recuperar, a abrir lentamente as portas do comércio, a negociar calmamente e a não inflaccionar preços.
Vamos pela rua e ouvimos 'namaste' a cada passo. Entramos nos pátios privados e ninguém nos olha de lado. Olham e dizem 'namaste'.
Somos pessoas com sorte? Não tenho a menor dúvida disso.... Ficámos sem água e sem luz mas entre o gerador e o poço safámo-nos muito bem. Sim, somos afortunados. E todas as noites falamos sobre a cidade e sobre a nossa admiração por este povo.
Nas aldeias já sabemos que a história é pior. Mas não tenho dúvidas que o povo nepalês vai dar a volta por cima.

A outra história do terramoto no Nepal

Sim, estou no Nepal. Estamos no Nepal. O terramoto aconteceu quando estávamos em trânsito na Índia mas, porque as notícias que recebemos de Katmandu logo a seguir não eram catastróficas, decidimos vir.
Não vos vos negar que nos interrogamos constantemente sobre se fizemos bem. Não estão a ser as férias ligeiras que tínhamos pensado. Mas estamos cá, a viver algo único, para o bem e para o mal.
Logo no primeiro dia percebemos que o que estava a passar nos noticiários internacionais devia ser alarmante. As mensagens que todos cá em casa recebem indicam isso. Mas só ontem nos sentámos a ver a CNN e percebemos até que ponto a história que está a ser contada é parcial.

Não estou a conseguir colocar fotos neste post e mostro-vos quando lá chegar, mas vamos lá começar a esclarecer umas coisas. E comecemos pela mais importante: Katmandu está de pé.
E agora uma coisa de cada vez:
eu diria que nem 1% dos edifícios caíram. Efectivamente caíram, total ou parcialmente, vários templos. Infelizmente muitos deles icónicos e património mundial;
algumas casas caíram. Algumas perderam algumas paredes. Houve prédios que tombaram de maneiras estranhas que fazem lembrar a liquefação das areias que se lê nos livros;
muitos mais prédios têm rachas; alguns claramente não aguentam outro sismo mas em muitos deles as fissuras são na ligação entre os panos de alvenaria e as lages e os pilares;
não há água corrente (e é dificil comprar tanques de água) nem luz e isso vai ser preocupante nos próximos dias;
as pessoas estão nos parques e espaços abertos. Estão calmas, pacientes, sem zangas. Quando circulamos de máquina em punho, não nos olham irritados. Ontem vimos uma zona de distribuição de comida: atrás uma linha de pessoas, na mais absoluta calma, esperava tranquilamente;
  as imagens que vos mostram de Katmandu são absolutamente parciais: vocês não têm como saber, mas o que vos mostram são meia dúzia de lugares diferentes, filmados de vários ângulos portanto parecem coisas diferentes. Não vos mostram as ruas funcionais. Rachas na estrada? Há 2 por onde tenhamos passado na cidade toda;
a casa onde eu estou não tem uma única racha.

Não tenho a menor dúvida que os hospitais estão a abarrotar. Não tenho dúvidas que estarão com falta de medicamentos e material médico e médicos e enfermeiros.
Não tenho dúvidas que ficaram pessoas debaixo das casas e dos templos.
Não tenho dúvida nenhuma que a situação nas aldeias é francamente pior. Essa notícia já tinha chegado aqui: que a devastação nas aldeias era muito grande, as casas não aguentaram. E nessas aldeias, algumas delas remotas, o socorro vai demorar. E gente morreu e se calhar continuará a morrer nos próximos dias. E claro que, se uma morte é mau, as cerca de 4000 de que se fala agora é uma catástrofe.

Mas o que vocês vêm nas notícias, sobretudo em Katmandu, é apenas a parte má da história. É apenas a tragédia que vende jornais e telejornais. Ontem, havia muito mais gente nas ruas a circular. A pé, de mota, de carro. Algumas lojas começaram a abrir e começava a sentir-se a vida a  regressar à normalidade.

Foi um terramoto terrível. Mas o país não está nem de perto nem de longe no estado em que vocês estão a ver. Dêem-me o crédito de estar cá e estar a ver Katmandu com os meus olhos.

O apelo da terra

A terra

Sou miúda de cidade com raízes na aldeia. Muitas raízes. Parece que cada vez mais.
Ver terra abandonada custa-me um nadica mais cada dia. Ver silvas a crescer, doi-me.
Por isso mesmo.... Pedi uma poça de terra emprestada à minha comadre. Vou pagar para a limparem. Vou arranjar quem lá vá com um tractor lavrá-la. Provavelmente vou ter de pagar a alguém para ir semear milho. E cheira-me que vai ser a minha mãe a regá-lo. Pois, eu fico com a parte fácil, ter ideias. Mas neste momento, isso parece-me importante.

Coisas tristes que não deviam ser precisas

Estou a trabalhar numa nota técnica para uma obra em África. Nada de novo debaixo do sol, portanto.
O que é novo é que tenho de escrever sobre, entre outras coisas tristes, medidas a implementar para evitar tráfico de seres humanos.
E estou triste. Muito triste. Não sei se mais triste que irritada.

Dos amigos


A minha vida está cheia de memórias de amigos.
Hoje fui buscar a minha mala de primeiros socorros para tirar um penso rápido. E quando olhei para a mala, lembrei-me de quando ma ofereceram, do amigo que ma deu e das palavras que me disse. "Isto é um presente para pessoas especiais". Os anos passaram mas as palavras e o significado ficou. A gratidão pela amizade que, entre outras coisas, me manteve sã nos anos de Angola também.
Bem hajas amigo!

Para o mano mais fixe do mundo

upload

Isto de ter o melhor mano do mundo não é só receber presentes e atenção. De vez em quando, muito de vez em quando, o mano pede alguma coisa. 
Ele é como eu.... Viver da mala não o assusta. E tal como eu, ach que sacos plásticos na mala para guardar os sapatos e a roupa suja, é mau. Por isso, rendeu-se a uma coisa "de velhinhas": taleigos. E os reforços para os que já tinham, estão a caminho. 

Projectos para hoje

upload Tinha planos para hoje. Saíram furados.
Fiz planos novos.

Mauritânia #5

De cada vez que faço uma pausa, isto é o que vejo.
De cada vez que faço uma pausa, esta é a paisagem.

Mauritânia #4

Uma rua normal numa zona residencial
Ok, está na hora de escrever um post decente.
Nouakchott. A capital. A primeira coisa que me vem à cabeça é que tudo é relativo. Que no que toca a África, os meus padrões são vários e é impossível não fazer comparações. E por isso, acho a cidade mais limpa do que as de Angola. Sinto-me mais segura. Embora se calhar o que me vale é que já não devo valer muitos camelos. Mas continuo a ser uma carteira com pernas de alguma forma. Bom, na verdade como qualquer turista em qualquer lugar do mundo, mas enfim.
O calor aperta durante o dia, mas é um calor seco, opressivo. Um calor que se sente na pele e sinto-me a fritar. E dizem, o calor ainda não começou. Que agora é que vai começar a doer. Eu, que não sou miúda de calor, até me arrepio só com a ideia.
Não consigo convencer-me que estou numa capital. Falta-lhe a grandiosidade. Aqui, grandes, só os muros compridos das embaixadas. Não estranho os talhos ao ar livre com peças de cabrito penduradas e umas nuvens de moscas esvoaçantes quando alguém se mexe por perto. Não estranho o cheiro do mercado onde passei hoje. Não estranho os preços exorbitantes que me pedem pelos tecidos (de má qualidade, diga-se) sintéticos que vi por ali. Andei pelas lojas de artesanato com as regras do costume: nem sequer perguntar o preço a não ser que queira mesmo comprar. O pouco que comprei foi por um preço que eu acho justo, adequado à qualidade da caixa de madeira ou do cesto de roupa suja em vime para o meu colega.
Há esplanadas, mas esqueçam lá as bejecas. Por aqui, são ilegais. Quase que me apetece pôr um lenço na cabeça para passar mais despercebida.
A cidade é em esquadria e na zona onde circulo começo a orientar-me. Mas não foi fácil. Tudo tem um ar igual, entre o branco e o amarelado, com uns tons terra aqui e ali. Os muros sucedem-se uns aos outros.
As conchas. Omnipresentes. A falta de verde. Vai saber tão bem aterrar e pegar no carro rumo a casa, às árvores, ao verde.
Se conseguir ficar aqui a trabalhar? Claro que sim. Já aprendi que consigo isso em qualquer lugar, desde que tenha livros e música a coisas para entreter as mãos. Mas não me parece um lugar fácil. Falta o que fazer fora de portas. Não há-de ser fácil aparvalhar com uns copos de gin tónico como fazíamos em Luanda.
Mais um alfinete no meu mapa do mundo. Mas não um particularmente interessante. Saio daqui com imenso respeito por quem cá está a trabalhar, a viver, a lutar e a continuar a sorrir.

Mauritânia #3

Muro branco. Céu azul. E o arame farpado que eu acho desnecessário mas que protege o meu sono.

Detesto o arame farpado. Mas já percebi que nalgumas partes do mundo é mais ou menos standard.

Mauritânia #2

Linha de roupa a secar na Mauritânia
Linha de roupa a secar na base de vida. Cor, tecidos leves e fluidos. Começo a ter umas ideias sobre isto. Depois falamos.

Mauritânia #1

Um país onde apanhar conchas não é diversão de dias de praia não me parece normal.
Este país é desértico. Até onde o olhar vai, há areia. Com conchas. Muitas. Tantas que são usadas como agregado para betões e betuminosos. É o que há.
Mas não me parece normal. Apanhar conchas é suposto ser diversão de dia de praia. Aqui nem por isso.

Duas semanas. Uma mala

Pronto. Voltemos às malas. Às odiadas malas. Aquelas a que por mais que viaje, nunca me habituo. Hoje já há malas fáceis. Angola é fácil. Já conheço as empregadas das casas e sei que vai haver sempre roupa lavada. Agora vou à Mauritânia. Já complica. Primeiro é um país árabe. Logo evitem-se saias, mangas curtas. Levo um vestido que me vai até aos pés. Não sei onde vou ficar. Não conheço as empregadas. Mas na semana passada, alguém tinha uma camisa com um botão semi-derretido... Melhor levar roupa a mais. Não sei como são as casas. Não sei se a malta já instalou televisão por satélite. Ok, então vão as meias que estão nas agulhas, mais um novelo novo que a minha comadre escolheu, mais uns restos que pode ser que comece umas pãra mim às cores. Melhor levar uns novelo de linha de crochet que 15 dias a fazer meia à noite não me parece. 2 caixas de nespresso. É sempre um presente valorizado. Colares. Botas cor-de-rosa e uns sapatos de salto. Uma mulher tem de continuar a ser mulher mesmo quando a mala está cheia de calças de ganga e camisas brancas. Umas colunas portáteis. O disco externo com filmes. O caderno de encargos da obra já impresso. Um copo para andar com o meu chá. Não era má ideia levar umas caixas de barritas. A Nina. Uma a lente extra. Desta vez vou fotografar o gel no cabelo do piolho no pêlo do camelo. O meu melhor sorriso. A usar com extrema contenção e apenas para a Fiscalização. Mon mieux français. A certeza que mesmo só com um sms de vezem quando vou ter a pior conta de roaming da minha vida. Um lenço grande. Não, não me rendo à religião. Mas pode dar jeito no deserto.

Há muito tempo que não escrevia um post sobre irritačoes

Por isso mesmo este vai ser breve. Eu. Vou. Matar. Alguém. Ponto. Parágrafo.

Mais uma volta ao carrossel

Estou a preparar-me para ir passar duas semanas de trabalho à Mauritânia. Não me venham com a pergunta "Gostas?" quando eu regressar porque é uma pergunta a que odeio responder. É trabalho, tenho que ir, não importa se gosto ou não. Mas digo desde já que países árabes para mim não são fáceis. Não tem nada a ver com ser mulher, apenas a maneira de trabalhar e pensar é tão diferente da nossa que me exige um esforço monstro manter uma cara simpática e seguir e fazer e acontecer. Mas vou. E vou cumprir os objectivos. Sabem o que tem andado mesmo na minha cabeça? O que é que levo para as horas vagas? Não sei se hoje ainda não me vou dar ao trabalho de cortar uns tecidos para fazer lá mais uns hexágonos. Afinal, nunca há hexágonos a mais na minha vida.

Bom dia mundo!

Lá fora chove. E a única frase que me ocorre é "bom dia mundo!"


Acordei com o barulho da chuva e dos carros no asfalto molhado. Gosto da chuva, não há nada a fazer. Acho que vou ser a única pessoa a sorrir por este motivo no escritório.

Das memórias a ressurgir

Eu adoro música. Preciso de música. Há claramente estilos que ouço mais que outros e alguns que sou absolutamente incapaz de ouvir.
Curiosamente começo a perceber que fico normalmente com alguma alergia à música que mais comummente se ouve nos países onde morei. Gosto de algum flamengo mas tem de ser particularmente bom, sou alérgica ao ponto de ficar com o corpo cheio de borbulhas e a música marroquina, a não ser em circuntâncias especiais e de músicos extraordinários, é uma coisa que me irrita a um nível indescritível.
Quando, há milhões de anos atrás, trabalhei em Marrocos uns meses, o momento em que sabíamos que tínhamos de sair da discoteca era quando começavam as "marroquinices". E o Jardin d'Eau, só lá íamos porue tinha os melhores steak au poivre da cidade mas vínhamos de lá a precisar de uma cura de silêncio.
Hoje estou em trânsito por Casablanca. Nem vou sair do aeroporto. Mas não preciso. Os chofe e os chokram trouxeram memórias. A confusão e a falta de informação e o ter de andar tipo barata tonta até que alguém dê uma informação de jeito também têm algo de déjà vu. E a música aqui no lounge... a música não perdoa. Com jeitinho vou reconhecer as músicas de há uns anos atrás.

Um domingo produtivo

:) upload
Queria algo que começasse e acabasse umas horas depois. Instant gratification se quiserem. E estou muito contente com o resultado! Uns metros de linha, tecido africano, um botão, umas horas de paciência e sai um saco para ter na carteira. Há muitos por aí, eu sei. Mas este fui eu que fiz!