Nada é eterno. Nem o ódio.

Eu tinha dois ódios de estimação na vida. Duas pessoas que dispensava um dia voltar a encontrar. Uma felizmente nunca mais vi mas também era o ódio mais fraquinho. Nem sei se ódio se pena... A outra, cruzava-se comigo muitas vezes. Cumprimentava-mo-nos com um aceno de cabeça ou um seco "Bom dia". Evitávamos frequentar as mesmas salas. No geral, evitávamo-nos. Eu tenho razões fortes, muito fortes para este ódio. Existe uma terceira, mas essa tanto não tem salvação que ganhou o epíteto de "Falecido". Pura e simplesmente não existe nem voltará a existir. Passado profundo e enterrado.
Mas noutro dia, cruzámo-nos de novo. E em vez do habitual "Bom dia", vá-se-lá saber porque mas eu levantei-me e cumprimentei mais calorosamente. Ainda hoje não sei porque o fiz. Basicamente era o que faria com qualquer outra pessoa e talvez me tenha levantado antes de me aperceber quem estava ali. O ar surpreendido do outro lado não me escapou. Nem me escapou o movimento, que não estava nos planos, de me cumprimentar de igual forma. Mas a partir daí, muito mudou. Nessa tarde cruzámo-nos no corredor e foi feito um comentário sobre conhecidos comuns que nunca aconteceria antes desse dia. E numa noite numa qualquer cidade da península, ligou a perguntar se eu queria companhia para jantar. Medo! Mas no dia seguinte retribuí a simpatia e a verdade é que as coisas mudaram. Já não nos evitamos. Nunca seremos amigos mas somos no mínimo mais civilizados. Quase cordiais.
Uma amiga acha que o que faltou todos estes anos foi um sinal meu de perdão. Talvez. E não sei se perdoei, mas sei que finalmente segui em frente. os ódios do passado não nos podem devolver o que perdemos nem apagar as palavras e as acções. Mas podem impedir-nos de lidar com as pessoas e ganhar uma companhia para jantar e deitar um bocado de conversa fora.
Tudo isto aconteceu já há uns meses. Foi surpreendente para mim. Eu a avançar e esquecer? Acho que é a velhice. Mas seja o que for vale a pena. Já não tenho que me lembrar nem pensar "Aí vem quem odeio, mexe só a cabeça e devolve a cara ao que estás a fazer". Odiar desgasta. E depois, não fiz eu miuta coisa má aos outros? Claro que sim. Se todos me odiassem com a força que usei neste caso, sobrar-me-ia pouca gente. E por isso mesmo, estou contente por me ter levantado e oferecido um cumprimento normal.

2 comentários:

Samsara disse...

Lindo!
Não sei do que falas, LOL, mas que gostei gostei, sim senhora.
Fora de brincadeiras, foi um peso que te saiu de cima (porque tu és tudo menos má) e não só a ti tenho a certeza.
Beijinhos

MauFeitio disse...

Sim, estar de pé atrás com alguém é um peso. Detesto viver assim.... Sinto-me bem melhor!