Breve lição sobre barragens

Para evitar que mais alguém ande a dizer asneiras como as publicadas no Semanário Transmontano a 20/6/2008, eu vou explicar uma coisa pequenina sobre as barragens. Mas antes leiam isto e digam-me se percebem onde está a calinada gorda:

"A partir de Novembro, o concelho de Alfândega da Fé já deverá começar a ser abastecido pela barragem de Sambade. O equipamento está concluído e já começou a armazenar água desde o mês passado.
A albufeira vai abastecer a vila de Alfândega da Fé e a zona poente do concelho, bem como algumas povoações da zona da Trindade, a montante da Vilariça, no concelho de Vila Flor, que têm registado frequentes problemas de qualidade de água.
“Nós estamos a prever que no mês de Novembro já possamos abastecer as comunidades a partir desta barragem”, adiantou o presidente do conselho de administração da empresa Águas de Trás-os-Montes e Alto Douro. Esta barragem tem ainda associada uma Estação de Tratamento de Água e 20 quilómetros de condutas adutoras, num investimento total de seis milhões e meio de euros.
Segundo Alexandre Chaves, graças ao método utilizado na construção, o denominado método “enrocamento”, serão evitados problemas semelhantes aos que ocorreram em Valtorno-Mourão, onde a barragem começou a perder água por causa de algumas fissuras. "


Ok, não sabem? Pronto, tudo bem, não têm que saber porque não são engenheiros civis e ainda menos geotécnicos. Então aqui vai uma breve lição de barragens:
A parte visível de uma barragem pode ser feita em betão (barragem de gravidade - gordas e pesadas, em arco - umas coisas lindas e elegantes que nos deixam de boca aberta, ou soluções mistas), em aterro ou enrocamento (com núcleos impermeáveis maiores ou mais pequenos mas sempre com algo que impede a passagem da água por esta parede). Há barragens em betão compactado. Há mil soluções porque a solução advem da localização da barragem, do tipo de terreno, da função da barragem, tem ou não produção de energia, caudais afluentes, um sem fim de coisas.
Mas o que é comum a todas as barragens, é que a água pode passar por baixo dessa parede. Não há rochas 100% impermeáveis embora umas sejam melhores e outras piores. E em todas elas tem de ser construída uma cortina subterrânea com calda de cimento injectada a partir da superfície (não tem de ser calda de cimento mas é a solução mais corrente) de maneira a criar uma barreira que a água tem de contornar e esse movimento vai diminiur a quantidade de água que passa e reduz-lhe muito a energia. Estas cortinas podem ser mais ou menos compridas, mais ou menos extensas, duplas, simples, com furos verticais ou inclinados, podem comer mais ou menos cimento. Mas têm de ficar bem feitas! E quando não ficam, as barragens perdem água. E podemos dizer que a água se perde pelas fissuras da rocha.
Agora voltem ao artigo e leiam de novo. Notaram? Enrocamento e fissuras não tem nada a ver! São dois fenómenos diferentes e independentes! E se o Sr. está convencido que lá por ter uma barragem de enrocamento não tem de fazer uma cortina de injecção, preparem-se para se rir que isto vai ser um fartote de riso!

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