Mais uma viagem

O fascínio pelos aviões, pelos aeroportos, pelas viagens, pela excitação de fazer a mala, pelos hotéis, há muito que se perdera. Em seu lugar havia uma medonha antecipação do ar abafado dos aviões. Aquele ar abafado mas frio que lhe dava sempre uma dor de garganta e que ponha a roupa a cheirar a velho. Sobre os hotéis descobrira que a fotografia da brochura era seguramente da única perspectiva aceitável do lobby. De certeza que fora muito trabalhada porque aquela esmolgadela contínua provocada pelas biqueiras dos sapatos de muitos clientes impacientes pelas chaves não se via na tal da fotografia.
Aquela viagem não seria diferente. Era preciso fazer o check-in 3 horas antes no vôo para Angola. Seriam horas a vaguear pelo aeroporto ou, mais provavelmente, sentada nos bancos duros da porta de embarque há espera de ser metida tipo carneirinho no avião.
Quando finalmente chegou ao lugar, percebeu que seriam 8 horas entalada entre a janela e uma senhora anafada que já tinha tomado posse dos braços das cadeiras. Quase teve de lhe passar por cima. Decidiu dormir. Esperança vã. A criançada da fila do meio não se calava. As hospedeiras bem que lançavam olhares ameaçadores à mãe mas esta ignorava-as decididamente, firme na sua decisão de passar a viagem a ouvir o último cd do Paulo Flores. O jantar foi uma carne estufada indiscriminada.
Fechou os olhos, encostou a cabeça e tentou pensar no que seria a vida dali para a frente. Ia trabalhar num país diferente. Ia porque sim. Não tinha nada a perder.
Quando as luzes da cabine se acenderam, abriu os olhos. Sentiu o já esperado cheiro a roupa do dia anterior. Sabia que um banho de gato na casa de banho provavelmente fedorenta do avião não a ia fazer sentir melhor.
Quando conseguiu passar a fronteira e descortinar a mala que já estava num canto qualquer fora do tapete, encontrou cá fora um motorista que com um ar sonolento segurava uma placa com o nome dela. Com os olhos de quem não dormiu, foi olhando para a cidade de Luanda que lhe passou pela frente até chegar ao hotel.
A reserva existia. A tal da marca no rodapé do balcão estava lá e ela deu mais uns pequeninos pontapés só porque sim. Chegou ao quarto, abriu a porta, e viu um papel que dizia "Por dificuldade de abastecimento de água na cidade, informamos que poderá falhar a água nos quartos. Pelo facto pedimos desculpa aos estimados clientes". As torneiras estavam secas.
Bem-vinda a Luanda, pensou a Madalena.

3 comentários:

Ana e os Viraventos disse...

Depois desta demonstração fico ainda mais feliz por teres decidido não expor este teu lado num lugar diferente, onde ninguém te conhece, mas aqui, onde te podemos conhecer melhor! Beijinhos. Ana

MauFeitio disse...

Bom dia Ana! Vamos ver se eu consigo construir a história da vida da Madalena..... Mas que quero tentar, quero!
Bom fim‑de‑semana!

Carla R. disse...

Bem vinda à ficção ! Gostei muito.