A velha pergunta do vir para Angola


Ando há 3 anos a responder à pergunta “Então e Angola?”. As perguntas têm-se intensificado à medida que, por as coisas em Portugal se terem complicado, as pessoas começam a ponderar vir para cá. Portanto deixem lá ver se mais uma vez eu me explico.
Ponto mais importante que todos: eu não moro na selva; eu não ando de liana em liana, eu não caço para comer.
Depois disto, vamos ver se nos entendemos.
Angola é igual a Portugal? Não. Todos os países são diferentes.
É um país difícil? Sim, não é fácil. Tem uma história complicada que temos de entender para conseguirmos perceber o dia-a-dia.
Posso ficar doente? Claro que sim! Pode-se ficar doente em qualquer lugar. E sim, há malária. E febre tifóide  E há pessoas com propensão para problemas intestinais. Mas há médicos. Medicamentos. Clínicas. Sim, as clínicas são caras e é preciso dinheiro vivo ou um cartão de crédito. Mas há.
Posso andar pela rua? Cada vez se vê mais gente a andar tranquilamente por aí. Como em qualquer cidade, há lugares que temos de evitar a determinadas horas. Mas alguém vai passear para o Casal Ventoso ou para o Bairro do Cerco?

Entendam uma coisa. O facto de as pessoas se darem bem ou mal em Angola tem muito (eu diria mesmo tudo) a ver com o espírito com que vêm. Se vierem para trabalhar, para fazer, para ser parte de uma coisa que se constroi todos os dias com esforço, então vai correr bem. Vêm pelo dinheiro? Hum…. Eu tenho sobre sérias dúvidas sobre essa motivação. Vêm à espera que as coisas vos caiam feitas no colo e os problemas se resolvam porque sim, sem esforço, sem empenho, por obra e graça do espírito santo? Então não venham porque isso não acontece.

E deixem-se de coisas. Eu não sou nenhuma super-mulher e estou cá há 3 anos! Eu conheço famílias inteiras que se mudaram para cá. Conheço gente que foi para Portugal e regressou. Conheço gente que não sabe quando irá sair de cá. O truque? Assumir que se vai morar aqui. Que é aqui a nossa vida. Que temos de criar amigos e fazer o melhor com o que temos. O truque? Não pensar constantemente em Portugal e em quem lá ficou e em como as coisas se faziam lá.

Venham porque querem vir. Porque querem construir. Venham dispostos a lutar e a esforçarem-se para serem felizes. Nós estamos cá e vivemos! Portanto, se serve para nós, porque não havia de servir para vocês?

2 comentários:

Naná disse...

Muito lúcido este post!

Eu nunca quis ir para Angola, apesar de mo terem sugerido. Porque sei que o dinheiro que me iam pagar não compensava, mas principalmente porque tenho a noção de que me sinto bem é em Portugal e não fora dele. Tempos houve em que não pensava assim...
Mas há que assumir o que queremos e o que não queremos, o que estamos dispostos a viver e a fazer na nossa vida. E sim, tem tudo a ver com o espírito com que se vai!

angela disse...

Acho que é mais complicado para quem sai de Portugal pela primeira vez.

Angola é como qualquer outro país do mundo: diferente do nosso e ponto.

Se alguem vem para aqui ou para qualquer outro lugar com a atitude de "ai que em Portgual era assim e era assado"...esqueçam! Não se vão dar bem em local nenhum do mundo.

Têm de vir com o mesmo espírito que se vai para outra qualquer lado: espiríto aberto e com vontade de se integrar num sitio onde vão ser recebidos.

A experiência de emigrar é muito, muito pessoal. Aquilo que é mau para mim ...pode ser bom para outro e vice-versa.

Costumo ler, mas sem comentar. Hoje, tinha mesmo de comentar :)