Old school

Bom, já toda a gente sabe que o meu mundo é o mundo das obras. E, apesar daquele belo esteriótipo dos gajos das obras brejeiros, a mandar bocas do andaime para baixo, a verdade é que este mundo é bastante educado para as mulheres que lá trabalham. Já me pediram mil vezes desculpa por uma asneira que saiu (e eu até digo bastantes...) ao que eu respondo sempre " não se preocupe.... Eu estudei no Porto numa escola de homens". Já fui tratada durante muito tempo de "menina engenheira"   e acho que isto foi das coisas mais atenciosas e respeitosas que alguém me chamou. Já passei pelos souks de Agadir com a equipa da obra estrategicamente posicionada à minha volta para garantir que ninguém se aproximava da menina que eles achavam que deviam proteger. E protegiam. Acho que se alguém tivesse olhado para mim com o menor laivo de malícia teria levado um soco de imediato.
Tenho amigos que me acompanham ao carro e não desgrudam até que eu tranque as portas. Já tive muitas refeições com cavalheiros que se levantam da cadeira quando eu me levanto (a primeira vez que me fizeram isso devo ter feito cara de parva porque essa regra não existia até então no meu mundo). Tenho amigos que caminham do lado de fora do passeio. E numa fase da minha vida acabei por me insurgir com o abrirem-me as portas dos edifícios e as portas do carro porque aquilo era tão sistemático que acabou a tirar-me do sério. Tenho uma velha "guerra" com o Sr. Eng porque qual de nós tem prioridade numa porta? Eu que sou mulher ou ele que tem mais idade e me merece todo o respeito do mundo por ser quem é? (Por acaso isto deu azo a uma nova regra gira entre mim e ele: quem segura a porta é quem chega primeiro à maçaneta, ambos a esticar o braço depressa para dar depois a prioridade de passagem ao outro).
Umas delicadezas foram caindo ao longo dos anos. Outras mantêm-se e todos nós as tomamos por normais. Mas de vez em quando, algo nos faz lembrar destas velhas regras. Normalmente quando alguém as aplica de uma forma tão natural que nos pomos a pensar porque diabo o mundo não é todo assim. Não é. Já só alguns se lembram das formas mais avançadas destas delicadezas. Eu, por mim, fico feliz quando sou alvo delas porque na maioria da vezes acho que não as mereço.
E agora já sei que vão aparecer por aí os do típico "então querem a igualdade ou não? É que se querem igualdade não há portas para ninguém". E eu vou ter de explicar que não é uma questão de igualdade, é pura boa educação e simpatia. E vou continuar a correr para abrir a porta do Sr. Eng! E vou continuar a ficar feliz quando me aplicam essas delicadezas a mim.

2 comentários:

Naná disse...

Não posso dizer que tive delicadezas dessas (portas abertas) enquanto trabalhei nas obras. Mas tive muito tratamento desse. Também ouvi muitos pedidos de desculpas quando saía um palavrão, até que perceberam que era-me indiferente e passaram a tratar-me como "mais um gajo"... e o que mais posso salientar é o respeito como igual entre todos nós, independentemente de idade ou posição na hierarquia :)

MauFeitio disse...

Bom, abrir portas de edifícios e de carros, excepto no que toca ao Sr. Engº, não é coisa de malta das obras. Esses foram outros, uns cavalheiros da minha juventude, no tempo em que infelizmente, eu não apreciava devidamente essas atenções :)