Para memória futura

Hoje faleceu um dos fundadores da casa.
Tive o privilégio de entrar quando ele ainda estava activo, com muito sentido de humor, e acima de tudo, tive a sorte de lidar com ele e aprender com ele. E há histórias que não esqueço. E não quero esquecer.
Como aquele dia, logo no início, estagiária minúscula, em que sou levada à sua presença para o teste de geologia. Entrega-me uma pedra. Roxa. Com cristais bem desenvolvidos e bonitos. Pode cheiras, lamber, testar. Olhei para a pedra. Lamber? Não me parece. Cheirar? Bem tentei. As minhas aulas de geologia tinham sido 5 anos antes e pedrinhas e minerais nunca foi a minha praia. Chumbei. Claro. Eu e toda a gente. Porque a pedra era cangando de vinho cristalizado. Baixei as orelhas. Devia ter lambido.
Ou o dia em que chegou ao pé de mim e disse Sandra, estou em limpezas. Se não quiser ficar com eles, vai tudo para o lixo. E assim me tornei a herdeira de livros sobre estaleiros, rendimento de obras e, pérola das pérolas, uma cópia do Tratado de Mecânica dos Solos do Kacot-Kerisel.
Ou o dia em que tinha de escrever um procedimento sobre um dos grandes segredos das barragens. Ninguém tinha tempo para explicar e a resposta que recebi foi Vai falar com o Engº. E lá fui eu, orelhas baixas, envergonhada com a minha ignorância. Engº, pode explicar-me isto por favor? Tenho de escrever um procedimento. E ele sorriu, sacou das plantas da barragem, os circuitos marcados a azul e a vermelho e perdeu uma hora a explicar, pacientemente, à engenheirinha que não percebia nada, um dos grandes segredos. Com a maior das naturalidades. Sem dramas. Sem olhar para mim a pensar Engenheirinha burra que me saiu na rifa. Saí com um conhecimento mínimo mas que me permitiu avançar. E ainda hoje, para mim, aquele trabalho são as plantas dele, pintadas a vermelho e a azul Primeiro é preciso testar os circuitos. Começa-se com calda fina mas tem de ter os blocos à volta em carga com água. E é preciso ver se não há fugas nem contaminação....
Tenho a sorte de ter conhecido 2 dos fundadores da casa. Tenho a sorte de conhecer 2 fundadores da casa. O que me ensinaram é impagável. Há 17 anos que aprendo. E há muito para aprender. Ainda por cima, do alto daquele imenso conhecimento, são ambos tão humildes em tudo. No que sabem. No que dizem que não sabem. No que ensinam. Na candura dos comentários.
Tenho sorte, muita sorte, por os ter para sempre na minha vida!
Bem hajam!