As coisas que não vemos

Há vidas na cidade que não nos damos ao trabalho de ver. Não queremos ver. Eu não vejo.
E há gente que ajuda. Que sai para o frio da noite para ajudar.
Ontem fui ter com um amigo dos que ajuda. Santa Apolónia à noite por estes dias é um lugar frio. Agasalha-te se cá vieres ter. E eu fui. Para ver e perceber. E eu, que tantas vezes cheguei áquela estação à noite, vi pela primeira vez a quantidade de sem-abrigo que anda por ali à noite. Uns mais "óbvios" que outros. Uns sóbrios outros nem por isso. Alguns formam famílias e outros estão por ali sozinhos.
A carrinha da câmara chegou. Alguns entraram para passar a noite num centro de acolhimento. Outros ficaram por ali.
Caminhei para o carro. Liguei o aquecimento para tentar afastar a humidade que se tinha entranhado nos ossos. Mas há coisas que entranharam. Eu dizia que quando estive em Marrocos aprendi a valorizar o ter nascido do lado certo do Mediterrâneo mas a verdade é que algo semelhante se aprende aqui. Se olharmos.

1 comentário:

Anónimo disse...

Tenho de arranjar coragem e tempo para fazer o mesmo. Ver e envolver-me.

Beijinho,
Liliana